Abrigo no local
Nem sempre evacuar é a melhor opção. Saiba quando e como fazer confinamento no local, selando a sua casa contra ameaças exteriores e garantindo provisões para 24 a 72 horas.
Quando ficar em casa é mais seguro do que sair
Em determinadas emergências, as autoridades podem ordenar o confinamento no local (shelter-in-place). Isto significa permanecer dentro de um edifício, selar janelas e portas, e aguardar instruções. Sair durante uma nuvem tóxica ou evento radiológico pode expor a família a riscos graves. Siga sempre as instruções da ANEPC e Proteção Civil.
Ficar ou evacuar? Critérios de decisão
A decisão de ficar ou sair depende do tipo de ameaça, da proximidade do perigo, das instruções oficiais e das condições das vias de fuga. Regra geral: se as autoridades ordenam confinamento, fique. Se ordenam evacuação, saia imediatamente.
Ficar em casa quando
- Nuvem tóxica ou química: acidente industrial, fuga de gás, derrame de substâncias perigosas
- Evento radiológico: acidente nuclear (paredes e telhados reduzem exposição à radiação)
- Tempestade severa: ventos fortes, granizo, tornado (se a casa for estruturalmente segura)
- Tiroteio ou ameaça de segurança ativa: permanecer dentro de casa com portas trancadas
- Qualidade do ar perigosa: fumo denso de incêndio florestal próximo
- Ordem oficial de confinamento pela ANEPC ou autoridades locais
Evacuar quando
- Incêndio na zona: fogo a aproximar-se, ordem de evacuação emitida
- Inundação: subida rápida da água, risco de ficar isolado
- Tsunami: sismo forte na costa, ir para terreno alto (ver guia)
- Danos estruturais: casa com fissuras graves após sismo
- Fuga de gás no edifício: risco de explosão, sair e ligar 112
- Ordem oficial de evacuação pela ANEPC ou autoridades locais
Ameaças que exigem confinamento
Acidente químico ou industrial
Portugal tem diversas instalações industriais classificadas como Seveso (risco elevado), nomeadamente nas regiões de Sines, Estarreja e Matosinhos. Um acidente nestas instalações pode libertar nuvens tóxicas que se deslocam com o vento.
- Gases tóxicos podem percorrer vários quilómetros
- A concentração diminui com a distância e o tempo
- Selar a casa reduz drasticamente a exposição
- Seguir instruções sobre direção de evacuação (perpendicular ao vento)
Evento radiológico
Embora Portugal não tenha centrais nucleares, existem centrais na fronteira espanhola (Almaraz, a 100 km da fronteira) e em França. Um acidente grave poderia afetar o território nacional.
- Paredes de betão reduzem a radiação em 90%
- Permanecer em divisão interior sem janelas
- Tomar comprimidos de iodo apenas se indicado pelas autoridades
- Não consumir alimentos ou água potencialmente contaminados
Tempestade severa
Ciclones extratropicais, tempestades com ventos superiores a 100 km/h e fenómenos extremos como o furacão Leslie (2018) podem tornar perigoso estar no exterior.
- Afastar-se de janelas e portas de vidro
- Ir para divisão interior no piso mais baixo
- Não sair durante a tempestade, mesmo que pareça acalmar (olho da tempestade)
- Ter lanterna e rádio a pilhas preparados (ver guia de apagões)
Fumo de incêndio florestal
Incêndios florestais de grandes dimensões podem gerar nuvens de fumo que cobrem regiões inteiras. A qualidade do ar pode atingir níveis perigosos para a saúde, mesmo a dezenas de quilómetros do fogo.
- Fechar todas as janelas e portas
- Desligar sistemas de ventilação que puxem ar do exterior
- Se possível, usar purificador de ar com filtro HEPA
- Limitar esforço físico para reduzir a inalação de partículas
Como selar uma divisão passo a passo
Se a ameaça for química ou radiológica, pode ser necessário selar completamente uma divisão para impedir a entrada de ar contaminado. Escolha a divisão com menos janelas e portas, de preferência no andar superior (gases pesados acumulam-se em baixo).
Material necessário
- Plástico de polietileno (mínimo 4 mm de espessura), pré-cortado ao tamanho das janelas
- Fita adesiva larga (fita americana/duct tape), pelo menos 2 rolos
- Toalhas húmidas para selar frestas na base das portas
- Tesoura para cortar o plástico
Passos de selagem
- Escolher a divisão: preferencialmente interior, com menos aberturas, no andar superior
- Desligar AVAC/ar condicionado: desligar toda a ventilação mecânica, incluindo exaustores e ventoinhas
- Fechar janelas e portas: trancar todas as aberturas da divisão
- Cobrir janelas com plástico: fixar com fita adesiva em todo o perímetro, sem deixar espaços
- Selar portas: cobrir com plástico ou colocar toalhas húmidas na base
- Selar grelhas de ventilação: cobrir com plástico e fita todas as saídas de ar
- Verificar tomadas e interruptores: estes podem ter pequenas passagens de ar nas paredes exteriores
Erros a evitar
- Não usar plástico fino (sacos de lixo rasgam facilmente e não vedam bem)
- Não esquecer as grelhas de ventilação (são a maior fonte de entrada de ar)
- Não selar antes da ordem oficial (o confinamento prematuro pode ser desnecessário)
- Não selar com toda a família numa divisão muito pequena (risco de acumulação de CO2)
- Não selar a casa inteira. Selar apenas a divisão de refúgio
- Não permanecer selado mais de 4-6 horas sem ventilar brevemente (risco de falta de oxigénio em espaços pequenos)
Gestão de ventilação
Quando desligar e quando reabrir
- Desligar imediatamente: sistema AVAC, ar condicionado, exaustores de cozinha e casa de banho, ventoinhas de teto
- Lareira: fechar o registo da chaminé completamente
- Quando reabrir: apenas após ordem oficial das autoridades (ANEPC, bombeiros, proteção civil)
- Procedimento de reabertura: abrir janelas do lado oposto ao vento durante 10-15 minutos para renovar o ar
- Se sentir dificuldade em respirar antes da ordem oficial: abrir brevemente uma janela do lado oposto ao vento, fechar logo de seguida
Provisões para 24-72 horas
Se o confinamento se prolongar, precisa de ter provisões essenciais na divisão de refúgio ou facilmente acessíveis dentro de casa.
Água e alimentação
- Água: 4 litros por pessoa por dia (beber + higiene)
- Alimentos que não precisem de cozinhar (bolachas, frutos secos, enlatados com abertura fácil, barras energéticas)
- Talheres descartáveis e abre-latas manual
- Sacos de lixo para resíduos
Comunicação e iluminação
- Rádio a pilhas (Antena 1: 95.7 FM em Lisboa) para acompanhar instruções oficiais
- Pilhas extra
- Telemóvel carregado + powerbank
- Lanterna e velas (com precaução)
Saúde e higiene
- Kit de primeiros socorros (ver guia)
- Medicamentos essenciais (receitas crónicas)
- Balde com tampa para sanidade (se sem acesso a casa de banho)
- Papel higiénico e toalhetes húmidos
- Gel desinfetante para as mãos
Kit de confinamento
Prepare este kit antecipadamente e guarde-o num local de fácil acesso. Verifique e reponha os materiais a cada 6 meses.
Lista do kit de confinamento
- Plástico de polietileno 4 mm pré-cortado ao tamanho das janelas e portas da divisão de refúgio
- Fita adesiva larga (fita americana), mínimo 2 rolos
- Toalhas (para humedecer e colocar na base das portas)
- Tesoura robusta
- Rádio a pilhas + pilhas extra
- Água engarrafada: mínimo 4L por pessoa
- Alimentos não perecíveis para 72 horas
- Lanterna + pilhas extra
- Kit primeiros socorros
- Medicamentos essenciais (cópias de receitas)
- Balde sanitário com tampa + sacos de lixo resistentes
- Documentos importantes em saco estanque (ver guia)
- Carregador de telemóvel e powerbank
- Jogos, livros ou atividades (especialmente se houver crianças)
Comunicação durante o confinamento
Manter-se informado
- Rádio a pilhas: fonte mais fiável durante emergências (Antena 1, RDP)
- Televisão: RTP1 para atualizações contínuas (se houver eletricidade)
- ANEPC: site prociv.gov.pt e redes sociais
- SMS: preferir mensagens escritas a chamadas (rede menos congestionada)
- Não confiar em rumores: seguir apenas fontes oficiais (ver guia)
Comunicar com a família
- Informar familiares que estão confinados e seguros
- Combinar ponto de encontro para depois do confinamento
- Contacto fora da zona para coordenação (familiar noutra cidade)
- Se houver crianças: explicar a situação com calma, manter rotinas possíveis
- Consultar o plano familiar de emergência
Números úteis
Emergência
- 112: Número europeu de emergência
- Proteção Civil: 800 246 246
- SNS 24: 808 24 24 24
Informação oficial
- ANEPC: prociv.gov.pt
- IPMA: ipma.pt
- DGS: dgs.pt
Rádio
- Antena 1: 95.7 FM (Lisboa)
- RTP1: informação contínua
- Todos os contactos
Sabia que?
Durante o acidente na central nuclear de Chernobyl (1986), os habitantes que permaneceram em casa com janelas fechadas tiveram uma exposição à radiação significativamente menor do que os que saíram para a rua. Em Portugal, o Plano Especial de Emergência para o Risco Radiológico (PEERR) prevê medidas de confinamento para populações até 100 km de centrais nucleares espanholas. Saber como selar uma divisão pode proteger a sua família.