Ondas de calor
Portugal regista ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas. Temperaturas acima de 40°C são comuns no interior e podem ser fatais, especialmente para idosos e crianças.
O calor mata silenciosamente
Em 2023, Portugal registou mais de 1 000 mortes em excesso atribuídas ao calor. Os idosos são o grupo mais vulnerável. Muitos morrem sozinhos em casa sem ar condicionado. Uma onda de calor é uma emergência de saúde pública. Consulte os alertas IPMA para avisos de temperatura.
"Heat dome": a nova realidade portuguesa
O que é um heat dome
Uma cúpula de calor é uma área de altíssima pressão que se instala sobre uma região durante vários dias, comprimindo o ar quente para baixo e impedindo a sua circulação. O efeito é como um forno fechado: as temperaturas sobem todos os dias, e a noite não traz alívio porque o ar quente não sai.
Portugal tem vindo a registar heat domes cada vez mais precoces, com temperaturas próximas dos 40 °C já em maio em algumas ocorrências da última década — várias semanas antes do tradicional pico de julho/agosto. Estes episódios passaram de "raros" a recorrentes.
Porque é mais perigoso que uma onda de calor normal
- Sem alívio nocturno: o corpo não recupera durante a noite (mínimas acima de 25 °C)
- Dura 5-14 dias: mortalidade dispara após o 3.º dia consecutivo
- Casas portuguesas são fracas a calor (construídas para frio, não para calor — sem isolamento adequado)
- Sobrecarga elétrica: apagões por excesso de consumo de AC
- Incêndios florestais em sincronia: ar seco e vento
- Seca agrava: rios e poços baixos, gado afetado
Sinal de alerta: noites tropicais
Quando a temperatura mínima nocturna não desce abaixo de 20 °C (noite tropical) ou 25 °C (noite tórrida), o risco para idosos e doentes crónicos aumenta drasticamente. Sem alívio nocturno o corpo não consegue arrefecer entre dias. Estas são as noites em que verificar os mais vulneráveis salva vidas.
Grupos de risco
Risco muito elevado
- Idosos (>65 anos): termorregulação reduzida, menor sensação de sede
- Bebés e crianças (<5 anos): desidratam rapidamente
- Doentes crónicos: cardiovascular, renal, diabetes, respiratório
- Acamados: não conseguem procurar frescura
Risco elevado
- Trabalhadores outdoor: construção, agricultura, recolha de lixo
- Praticantes de desporto ao ar livre
- Obesos: maior dificuldade em dissipar calor
- Pessoas sem-abrigo: sem acesso a abrigo ou água
Verifique os vizinhos
- Visitar idosos que vivem sozinhos pelo menos 2x/dia
- Garantir que bebem água regularmente
- Levar a espaços frescos se não tiverem AC
- Verificar medicação, pode precisar de ajuste (ver guia)
Golpe de calor vs Exaustão pelo calor
Exaustão pelo calor
Gravidade: Moderada, precisa de atenção
- Transpiração abundante
- Pele fria e húmida
- Fraqueza, tonturas, náuseas
- Dor de cabeça
- Cãibras musculares
- Pulso rápido mas fraco
O que fazer
- Levar para local fresco e à sombra
- Deitar com pernas elevadas
- Dar água fresca aos poucos (não gelada)
- Panos húmidos na testa, nuca e pulsos
- Se não melhorar em 30 min → ligar 112
Golpe de calor (insolação)
Gravidade: EMERGÊNCIA MÉDICA, pode ser fatal
- Temperatura corporal >40°C
- Pele quente, vermelha e SECA (sem suor)
- Confusão mental, delírio
- Perda de consciência
- Convulsões
- Pulso rápido e forte
LIGAR 112 IMEDIATAMENTE
- Arrefecer URGENTEMENTE: água fria no corpo, gelo nas axilas/virilhas/nuca
- Levar para sombra, remover roupa
- NÃO dar água se estiver inconsciente
- Posição lateral de segurança se inconsciente
- Arrefecer até chegada do INEM
Como se proteger
Hidratação
- Beber 2-3 litros de água por dia mesmo sem sede
- Evitar álcool, café e bebidas açucaradas (desidratam)
- Comer fruta com água: melancia, melão, laranja, pepino
- Sopas frias (gaspacho) e saladas
- Evitar refeições pesadas e quentes
- Crianças e idosos: oferecer água a cada 20-30 minutos
Comportamento
- Evitar exposição solar entre 11h-17h
- Roupa leve, clara e larga (algodão ou linho)
- Chapéu de abas largas e óculos de sol
- Protetor solar SPF 50+ (reaplicar cada 2h)
- Banhos ou duches frescos (não gelados)
- Desporto: apenas de manhã cedo ou ao final do dia
- NUNCA deixar crianças ou animais no carro
Proteger a casa
- Fechar portadas e persianas do lado do sol
- Ventilar de noite e de madrugada (janelas abertas)
- Fechar janelas de manhã quando temperatura sobe
- Panos húmidos na frente de ventoinhas
- Se não tiver AC: passar horas mais quentes em espaço público com AC (centro comercial, biblioteca)
- Plantas no exterior das janelas viradas a sul criam sombra natural
Animais
- Água fresca sempre disponível e à sombra
- NUNCA passear cães em asfalto quente (teste: se não aguenta a mão 5s no chão, está quente demais para as patas)
- Passeios apenas de manhã cedo ou à noite
- Sinais de golpe de calor em cães: ofegar excessivo, baba espessa, desorientação
- Gatos: acesso a divisões frescas
- Ver guia completo para animais
Medicamentos afetados pelo calor
Atenção à medicação em ondas de calor
Alguns medicamentos são afetados pelo calor ou afetam a resposta do corpo ao calor. Consulte o seu médico antes de alterar qualquer medicação.
- Diuréticos: aumentam perda de água, maior risco de desidratação
- Beta-bloqueadores: reduzem capacidade de adaptar ritmo cardíaco ao calor
- Anti-histamínicos: podem reduzir transpiração
- Antidepressivos: alguns afetam termorregulação
- Antipsicóticos e anticolinérgicos: bloqueiam transpiração — risco elevado de hipertermia
- AINEs (ibuprofeno, naproxeno): sobrecarga renal em desidratação
- Armazenamento: maioria dos medicamentos deve ficar abaixo de 25 °C. Se a casa ultrapassar, guardar em local mais fresco (não no frigorífico salvo indicação)
- Consultar guia de kit médico para armazenamento
Insulina e cadeia de frio doméstica
Cerca de 1 milhão de portugueses tem diabetes e centenas de milhares usam insulina diária. Numa onda de calor com apagão prolongado ou frigorífico avariado, manter a cadeia de frio torna-se questão de sobrevivência.
Insulina — regras essenciais
- Por abrir (frasco/caneta selada): 2-8 °C (frigorífico), até à data de validade
- Em uso (caneta aberta): pode ficar a temperatura ambiente até 25-30 °C durante 28 dias (verificar bula — variantes como Lantus e algumas análogas têm regras próprias)
- Acima de 30 °C ou direto ao sol: perde eficácia, descartar
- NUNCA congelar: a estrutura da molécula é destruída — inútil mesmo se descongelada
- NUNCA deixar no carro (temperaturas interiores chegam a 60-70 °C no verão)
- Em viagem usar carteira térmica de medicação
Outros medicamentos refrigerados
- GLP-1 (Ozempic, Saxenda, Trulicity): ideal 2-8 °C; após aberto suporta até 30 °C por 28-56 dias (ver bula)
- Vacinas (em casa, ex.: campanhas): sempre 2-8 °C — usar termómetro de frigorífico
- Adrenalina (EpiPen, Anapen): 15-25 °C — não refrigerar (o frio também degrada). Líquido turvo ou amarelado = descartar
- Colírios após abrir: alguns precisam de frigorífico (ver bula)
- Antibióticos em suspensão (pediátricos pós-reconstituição): geralmente 2-8 °C, 7-14 dias
- Hormonas tiroideias e contracetivos orais: apenas <30 °C, não exigem frigorífico
Sem frigorífico (apagão ou avaria)
- Frigorífico fechado: mantém ~4 horas seguro
- Carteira térmica + acumuladores de gelo (saco do supermercado): mantém 4-8 °C durante 12-24 h
- Não colocar insulina em contacto direto com gelo (risco de congelar): isolar com pano/toalha
- Garrafas de 1,5 L congeladas funcionam como acumuladores caseiros
- Mala térmica grande (camping) + 2-3 placas eutécticas: 24-48 h a 4-10 °C
- Vizinho/amigo com gerador ou energia: mover medicação refrigerada para lá
Refrigeração sem eletricidade — método zeer
Princípio milenar de refrigeração por evaporação, sem energia. Mantém 5-10 °C abaixo da temperatura ambiente:
- 2 potes de barro: 1 maior, 1 mais pequeno cabe dentro do outro com 3-5 cm de folga
- Encher esse espaço com areia húmida
- Tapar pote interno com pano húmido
- Manter à sombra, com brisa, longe do chão
- Molhar a areia 1-2× por dia
- Útil para alimentos, vegetais, ovos e medicamentos não-refrigerados
- Não substitui frigorífico para insulina — alternativa parcial
Plano para diabéticos em onda de calor
- Antes do verão: comprar 1 mala térmica e 4-6 placas eutécticas, guardar no congelador
- No início da onda de calor: passar insulina aberta para sítio mais fresco da casa (geralmente cozinha norte, despensa interior). Termómetro digital com sensor
- Reserva de 7 dias de insulina + lancetas + tiras + dispositivo de medição — manter em local fresco
- Hidratação reforçada: a desidratação descontrola a glicemia
- Verificar com mais frequência: o calor altera a absorção da insulina (mais rápida)
- Plano com SNS 24 ou médico de família: telefone direto para crise
Contactos
Emergência
- 112, Emergência
- E-REDES (avarias): 800 506 506
- SNS 24: 808 24 24 24
Alertas
- IPMA: ipma.pt
- Guia alertas IPMA
- App IPMA (alertas temperatura)
Apoio
- Linha do Idoso: 800 203 531
- Proteção Civil: 800 246 246
- Todos os contactos
Planeie com antecedência
Quando o IPMA emite alerta laranja ou vermelho por calor, prepare-se na véspera: compre água extra, verifique idosos da família e vizinhança, planeie atividades para locais frescos. O calor extremo pode durar 5-10 dias, prepare-se para um período prolongado, não apenas um dia.