Saúde mental em emergências
As emergências afetam o corpo e a mente. Reconhecer as reações normais ao stress e saber como lidar com elas é essencial para a recuperação.
As suas reações são normais
Após uma emergência, sentir ansiedade, insónia, irritabilidade ou dificuldade em concentrar-se é completamente normal. Estas reações são a resposta natural do corpo a uma situação extraordinária. Reconhecê-las é o primeiro passo para a recuperação.
Reações normais ao stress
Sintomas físicos
- Coração acelerado: batimento cardíaco rápido, palpitações
- Tremores: mãos ou corpo a tremer
- Náuseas: mal-estar no estômago, perda de apetite
- Dores de cabeça: tensão, pressão na cabeça
- Fadiga extrema: exaustão mesmo sem esforço físico
- Insónia: dificuldade em adormecer ou acordar durante a noite
- Tensão muscular: rigidez no pescoço, ombros e costas
Sintomas emocionais
- Ansiedade: preocupação constante, sensação de perigo
- Medo: medo de que volte a acontecer, hipervigilância
- Raiva: irritabilidade, frustração com situações pequenas
- Culpa: sentir que podia ter feito mais
- Tristeza: choro, sensação de perda ou vazio
- Dificuldade em concentrar-se: esquecimentos, confusão mental
- Sensação de impotência: sentir que nada está no seu controlo
Técnicas de gestão do stress
Respiração 4-7-8
Uma técnica simples que ativa o sistema nervoso parassimpático e ajuda a acalmar:
- Inspirar pelo nariz durante 4 segundos
- Suster a respiração durante 7 segundos
- Expirar pela boca durante 8 segundos
- Repetir 4 vezes
Pode fazer este exercício em qualquer lugar. É particularmente útil antes de dormir ou em momentos de pânico.
Grounding 5-4-3-2-1
Esta técnica usa os sentidos para o ancorar ao momento presente, reduzindo a ansiedade:
- 5 coisas que vê (descreva-as mentalmente)
- 4 coisas que toca (sinta a textura)
- 3 coisas que ouve (identifique os sons)
- 2 coisas que cheira (concentre-se nos aromas)
- 1 coisa que saboreia (note o sabor na boca)
Manter uma rotina
Após uma emergência, as rotinas dão uma sensação de controlo e normalidade:
- Horário de refeições: comer a horas regulares, mesmo sem apetite
- Horário de sono: deitar e levantar à mesma hora
- Exercício físico: mesmo uma caminhada curta ajuda a reduzir o stress
- Contacto social: falar com família e amigos todos os dias
- Tarefas simples: pequenas ações (arrumar, cozinhar) restauram o sentido de controlo
Limitar exposição a notícias
A informação constante sobre a emergência pode agravar a ansiedade:
- Limite a 2 vezes por dia: de manhã e ao final do dia
- Fontes oficiais: IPMA, ANEPC, SNS 24. Evite redes sociais não verificadas
- Desligar notificações: as alertas constantes mantêm o cérebro em modo de alarme
- Conversas repetitivas: é natural querer falar sobre o que aconteceu, mas reviver constantemente os detalhes pode ser prejudicial
Falar com crianças sobre emergências
3 a 6 anos
- Linguagem simples e honesta: "Houve uma tempestade forte e estragou algumas coisas, mas estamos seguros"
- Tranquilizar: reforçar que os adultos estão a cuidar de tudo
- Permitir regressões: chupar no dedo, enurese ou pesadelos são reações temporárias normais
- Manter rotinas: hora de comer, brincar e dormir
- Brincar: o jogo é a forma como as crianças processam emoções
7 a 12 anos
- Responder às perguntas com honestidade: não inventar nem minimizar, mas adaptar ao nível de compreensão
- Envolver em tarefas: ajudar a arrumar, preparar mochilas. Sentir-se útil reduz a ansiedade
- Validar sentimentos: "É normal sentires medo. Eu também senti"
- Limitar exposição a notícias: as imagens repetidas podem ser traumáticas
- Estar atento a mudanças: queda no rendimento escolar, isolar-se dos amigos, agressividade
Adolescentes (13+)
- Tratar como quase-adultos: partilhar factos, envolver nas decisões familiares
- Encorajar apoio entre pares: estar com amigos ajuda na recuperação
- Atenção a comportamentos de risco: isolamento, consumo de álcool ou drogas, comportamento imprudente
- Normalizar emoções: raiva, frustração e tristeza são reações válidas
- Oferecer autonomia: deixar que contribuam ativamente para a recuperação familiar
Apoiar outros
Como ajudar quem está em sofrimento
- Ouvir ativamente: não interromper, não dar conselhos imediatos. Basta estar presente
- Não minimizar: evitar frases como "podia ter sido pior" ou "tens de ser forte"
- Oferecer ajuda prática: uma refeição, transporte, ajudar com papéis ou seguros
- Respeitar o silêncio: nem toda a gente quer falar. A presença silenciosa é válida
- Perguntar diretamente: "Como posso ajudar?" é melhor do que assumir o que a pessoa precisa
Sinais de alerta: quando preocupar-se
- Isolamento prolongado: recusa de contacto social durante semanas
- Consumo de substâncias: aumento do álcool, medicamentos ou drogas para lidar com o stress
- Ideação suicida: falar sobre não querer estar vivo, oferecer posses, despedir-se
- Dar pertences pessoais: distribuir objetos importantes sem razão aparente
- Se identificar estes sinais: não deixe a pessoa sozinha e contacte imediatamente o 112 ou o SNS 24 (808 24 24 24)
Após a emergência: recuperação a longo prazo
Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT)
Alguns sintomas podem persistir ou agravar-se semanas após a emergência:
- Flashbacks: reviver o evento como se estivesse a acontecer de novo
- Pesadelos: sonhos recorrentes sobre o evento
- Evitamento: evitar locais, pessoas ou conversas que recordem o evento
- Hipervigilância: estado constante de alerta, sobressaltar-se com facilidade
- Entorpecimento emocional: sentir-se desligado dos outros ou de si próprio
Quando procurar ajuda profissional
Procure apoio se:
- Os sintomas persistem mais de 1 mês sem melhoria
- O funcionamento diário está afetado (trabalho, relações, cuidados pessoais)
- O consumo de álcool ou substâncias aumentou
- Tem pensamentos de autolesão ou suicídio
- Sente que não consegue lidar sozinho
Procurar ajuda profissional é um sinal de força, não de fraqueza. A recuperação leva tempo e cada pessoa tem o seu ritmo.
Contactos de apoio
Linhas de apoio psicológico (gratuitas e confidenciais)
- SNS 24: 808 24 24 24 (linha de saúde portuguesa, 24 horas, com apoio psicológico)
- SOS Voz Amiga: 213 544 545 (diariamente das 16h às 00h)
- Linha de Saúde Mental: 808 200 204
- Emergência: 112
Lembre-se
A recuperação não é linear. Haverá dias melhores e dias mais difíceis. Isso é normal. Cuide de si como cuidaria de um amigo em sofrimento: com paciência, compaixão e sem julgamento. Não tem de enfrentar isto sozinho.