Os mais vulneráveis são os que mais sofrem

Durante a tempestade Kristin, idosos isolados ficaram dias sem eletricidade, aquecimento ou comunicação. Pessoas com mobilidade reduzida não conseguiram evacuar. A preparação para pessoas vulneráveis requer planeamento específico e uma rede de apoio ativa.

Medicação crítica

Reserva de medicamentos

  • Manter reserva de 2-4 semanas de toda a medicação crónica
  • Lista escrita com: nome do medicamento, dosagem, horário, médico prescritor
  • Guardar medicamentos que precisam de frio em caixa isotérmica com gelo
  • Receitas médicas em cópia (papel e digital)
  • Contacto da farmácia habitual

Equipamentos médicos

  • Oxigénio: reserva de botijas, contacto do fornecedor
  • CPAP/BiPAP: bateria portátil ou powerstation compatível
  • Cadeira de rodas: verificar pneus, ter manual dobrável de reserva
  • Diabetes: medidor de glicemia, tiras, insulina com gelo
  • Diálise: contactar centro e ter plano alternativo

Mobilidade e evacuação

Plano de evacuação adaptado

  • Identificar todas as barreiras físicas: escadas, portas estreitas, terreno irregular
  • Ter pelo menos 2 vizinhos/familiares que possam ajudar na evacuação
  • Praticar a rota de evacuação com a pessoa vulnerável
  • Se vive em andar alto sem elevador, ter plano para descer
  • Manter cadeira de rodas/andarilho/bengala sempre acessível
  • Considerar rampa portátil se houver degraus na saída

Transporte adaptado

  • Identificar serviços de transporte adaptado na zona
  • Ter contacto dos bombeiros locais para evacuação assistida
  • Manter cadeirinha de bebé/criança no carro se aplicável
  • Combinar com vizinhos com carro quem transporta quem

Animais de assistência em evacuação

Os animais de assistência (cães-guia, cães de alerta médico, etc.) têm direito legal a acompanhar o dono em todos os locais, incluindo abrigos de emergência (Decreto-Lei n.º 74/2007).

  • Mantenha a documentação do animal de assistência sempre acessível (cartão de identificação, certificado)
  • Inclua comida, água e tigela do animal no kit de emergência
  • Informe previamente o centro de evacuação local da existência do animal de assistência
  • Tenha um plano alternativo caso o animal se perca ou fique ferido

Comunicação adaptada

Para idosos

  • Telemóvel simples com teclas grandes, carregado e pronto
  • Números de emergência em marcação rápida (tecla 1 = 112, tecla 2 = familiar)
  • Lista de contactos em papel grande, colada na parede
  • Rádio a pilhas (muitos idosos sabem usar melhor que smartphones)
  • Apito ao pescoço para sinalizar se precisar de ajuda

Para pessoas com deficiência

  • Visual: alertas sonoros, rádio, lanterna tátil de fácil operação
  • Auditiva: alertas visuais (luz intermitente), vibração no telemóvel, app SNS 24 (texto), campainhas com flash luminoso. Ativar alertas de emergência no telemóvel (Settings → Alertas de emergência)
  • Cognitiva: instruções simples e ilustradas, rotinas claras
  • Dispositivos de assistência com baterias carregadas
  • Cartão de identificação médica ao pescoço ou pulso

Rede de apoio

Construir uma rede antes da emergência

  • Identificar 2-3 vizinhos de confiança e trocar contactos
  • Registar a pessoa vulnerável na Proteção Civil municipal
  • Informar a Junta de Freguesia da situação
  • Contactar assistente social se necessário
  • Definir sistema de verificação: "se não me vir até às 10h, bata à porta"
  • Partilhar chave de casa com pessoa de confiança

Registo na Proteção Civil

Muitos municípios permitem registar pessoas vulneráveis para prioridade em evacuações e assistência. Contacte a sua Câmara Municipal ou Junta de Freguesia para saber como registar idosos, pessoas com deficiência ou com necessidades médicas especiais na sua zona.

Necessidades específicas

Bebés e crianças pequenas

  • Fraldas para 2 semanas
  • Leite em pó / fórmula infantil
  • Papas e comida de bebé
  • Brinquedo de conforto
  • Roupa quente extra
  • Cadeirinha de carro

Alimentação de bebés em emergência

  • Amamentação: manter se possível, stress pode reduzir temporariamente a produção, mas o contacto pele-a-pele e a sucção frequente ajudam a restabelecer
  • Fórmula infantil: reserva para 2 semanas mínimo. Preparar com água fervida e arrefecida a 70°C
  • Sem eletricidade: ferver água em fogão a gás/fogareiro. Usar biberões esterilizados a frio (pastilhas Milton)
  • Papas: preparar apenas com água potável verificada
  • NÃO usar água de inundação mesmo fervida para preparar alimentos de bebé
  • Biberões descartáveis: ter 10-20 unidades como reserva (mais higiénicos sem acesso a esterilização)
  • Guardar latas de fórmula fechadas em local seco e fresco

Grávidas

  • Contacto do obstetra escrito
  • Maternidade alternativa identificada
  • Vitaminas pré-natais (reserva)
  • Plano de parto de emergência
  • Kit para parto improvisado

Condições crónicas

  • Pulseira/cartão de identificação médica
  • Plano de ação para crises (asma, epilepsia, diabetes)
  • Alimentos especiais (sem glúten, diabéticos)
  • Contacto de especialista
  • Equipamento de monitorização com pilhas

Preparação psicológica e emocional

A mente também precisa de preparação

O impacto psicológico de uma catástrofe pode durar mais que o impacto físico. Saber o que esperar ajuda a manter o controlo.

Antes da emergência: preparar a mente

  • Normalizar o medo: ansiedade é útil, pânico é medo sem plano
  • Canalizar ansiedade → ação (verificar kit, rever plano)
  • Técnica respiração 4-7-8: inspirar 4s, suster 7s, expirar 8s, repetir 4×. Ensinar a toda a família.
  • Visualização positiva: imaginar-se a agir calmamente
  • Conversar em família sem dramatizar

Crianças em emergências

Crianças 4-8 anos

  • Linguagem simples: "Vai haver tempestade, estamos preparados"
  • NÃO mentir. Ser honesto e tranquilizador
  • Manter rotinas (refeições, hora de dormir, história)
  • Objeto de conforto na mochila de emergência
  • Jogos úteis: "acampar" em casa, tabuleiro, desenhar
  • Sinais de stress: regressão, pesadelos, birras invulgares
  • Resposta: mais contacto físico, validar sentimentos, calma

Crianças 9-14 anos

  • Dar informação factual adequada, envolver na preparação
  • Dar responsabilidades: "Tu tratas da mochila do cão"
  • Limitar notícias/redes sociais durante a crise
  • Sinais de stress: isolamento, irritabilidade, queda escolar
  • Resposta: disponibilidade, normalizar emoções, atividade física

Durante a emergência: manter o controlo

O adulto é a âncora emocional

Se os adultos entrarem em pânico, todos entram.

  • Liderança calma: tom firme, instruções curtas e claras
  • Informação controlada: rádio 2-3×/dia, NÃO doom-scrolling
  • Rotina dentro do caos: horários mesmo num abrigo
  • Manter-se ocupado: cozinhar, organizar, jogos
  • Alimentação/hidratação: forçar-se a comer e beber, chocolate às crianças
  • Sono: turnos de vigia, crianças dormem o máximo

Após a emergência: recuperação

  • Primeiras 48h: euforia + exaustão, chorar é normal, não tomar decisões importantes
  • 1ª semana: irritabilidade, insónia, replaying, TUDO NORMAL
  • 1º mês: sintomas devem diminuir; se pioram, procurar ajuda profissional

Reconhecer stress pós-traumático (PTSD)

Procure ajuda profissional se após 4 semanas persistirem:

  • Revivências: pesadelos, flashbacks, distress com gatilhos (chuva, vento)
  • Evitamento: recusar sair, evitar falar do evento
  • Alterações de humor: dormência emocional, culpa, desinteresse
  • Hiperativação: insónia, irritabilidade extrema, sobressalto

Em crianças: pesadelos repetitivos, desenhos obsessivos, medo desproporcional.

Luto e perda

  • Perda de casa/bens: é luto real, permitir tristeza, não minimizar
  • Perda de ente querido: luto complexo em contexto de catástrofe
  • Crianças: honestidade, presença, paciência

Apoio comunitário

  • Falar ajuda, partilhar experiências
  • Verificar vizinhos (idosos, isolados, monoparentais)
  • Refeições partilhadas, reconstrução como terapia
  • Voluntariado ativa sentido de propósito

Onde procurar ajuda profissional em Portugal

  • SNS 24: 808 24 24 24, triagem saúde mental, 24/7
  • SOS Voz Amiga: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660, 15h30-00h30
  • INEM: apoio psicológico em catástrofes
  • Ordem dos Psicólogos: ordemdospsicologos.pt, localizar profissionais
  • Centro de Saúde: consulta psicologia SNS (via médico de família)

Pedir ajuda NÃO é fraqueza

Se um osso partido precisa de médico, uma mente partida também.

Contactos úteis