Plantas selvagens comestíveis
Em Portugal existem dezenas de plantas selvagens comestíveis que podem complementar a alimentação numa situação de emergência prolongada. Conheça as mais comuns e seguras.
NUNCA comer uma planta sem identificação certa
A regra número um da colheita selvagem é: se tem dúvidas, não coma. Muitas plantas tóxicas assemelham-se a plantas comestíveis. Aprenda a identificar com certeza absoluta antes de consumir qualquer planta selvagem.
Plantas tóxicas comuns em Portugal
- Cicuta (Conium maculatum): semelhante à salsa e ao funcho. Toda a planta é extremamente tóxica e potencialmente fatal
- Beladona (Atropa belladonna): bagas pretas brilhantes que podem ser confundidas com mirtilos. Fatal mesmo em pequenas quantidades
- Dedaleira (Digitalis purpurea): flores tubulares púrpuras. Contém glicosídeos cardíacos que podem causar paragem cardíaca
- Espirradeira (Nerium oleander): arbusto ornamental muito comum em Portugal. Todas as partes são tóxicas, incluindo o fumo da queima
- Estramónio (Datura stramonium): fruto espinhoso com sementes. Causa alucinações, delírio e pode ser fatal
Regras de segurança
Teste de comestibilidade universal
Se não tiver certeza absoluta sobre uma planta, use este teste antes de consumir. O teste demora cerca de 24 horas.
- 1. Separar: separar a planta em partes (folhas, caule, raiz, flor, fruto). Testar uma parte de cada vez
- 2. Cheirar: esmagar e cheirar. Se o cheiro for muito forte, amargo ou desagradável, descartar
- 3. Contacto com a pele: esfregar na parte interior do pulso. Esperar 15 minutos. Se houver irritação, vermelhidão ou comichão, descartar
- 4. Contacto com os lábios: tocar com a planta no canto do lábio. Esperar 15 minutos. Se arder ou irritar, descartar
- 5. Contacto com a língua: colocar um pedaço pequeno na ponta da língua. Esperar 15 minutos. Se tiver sabor muito amargo, a queimar ou dormência, cuspir
- 6. Mastigar: mastigar um pedaço pequeno sem engolir. Esperar 15 minutos
- 7. Engolir uma porção pequena: engolir uma porção mínima. Esperar 8 horas. Não comer mais nada durante este tempo
- 8. Comer uma porção maior: se não sentir mal-estar, comer uma porção mais generosa. Esperar mais 8 horas
Atenção: este teste não garante segurança total. Algumas toxinas acumulam-se com o consumo repetido. Use apenas em situação de sobrevivência real.
12 plantas comestíveis comuns em Portugal
1. Beldroegas (Portulaca oleracea)
- Identificação: planta rasteira com caules avermelhados e folhas pequenas, carnudas e ovais. Cresce junto ao solo
- Partes comestíveis: folhas e caules jovens
- Época: primavera e verão (abril a setembro)
- Preparação: cruas em salada, cozidas em sopas, ou refogadas com alho. Sabor ligeiramente ácido e refrescante
- Valor nutricional: rica em ómega-3, vitaminas A e C, ferro e magnésio
2. Dente-de-leão (Taraxacum officinale)
- Identificação: folhas dentadas em roseta junto ao solo, flor amarela solitária num caule oco que exsuda um látex branco
- Partes comestíveis: folhas, flores e raízes
- Época: todo o ano, melhor na primavera antes da floração
- Preparação: folhas jovens cruas em salada (menos amargas), cozidas como espinafre, flores em tempura, raízes torradas como substituto de café
- Valor nutricional: rica em vitaminas A, C e K, cálcio e ferro
3. Serralha (Sonchus oleraceus)
- Identificação: folhas semelhantes ao dente-de-leão mas maiores e com espinhos macios. Caule com látex branco. Flores amarelas pequenas
- Partes comestíveis: folhas jovens e caules tenros
- Época: todo o ano, melhor de outubro a abril
- Preparação: cozidas em água para reduzir o amargor, refogadas com azeite e alho, em sopas
- Valor nutricional: rica em ferro, cálcio e vitaminas A e C
4. Urtiga (Urtica dioica)
- Identificação: folhas em forma de coração com bordos serrados e pelos urticantes. Caule quadrado. Cresce em zonas húmidas e sombrias
- Partes comestíveis: folhas jovens (os 4-6 pares superiores)
- Época: primavera (março a maio), rebentos novos
- Preparação: SEMPRE cozinhar (elimina os pelos urticantes). Excelente em sopas, chás e como substituto de espinafre. Colher com luvas
- Valor nutricional: uma das plantas selvagens mais nutritivas. Rica em ferro, proteína, cálcio e vitaminas A e C
5. Azedas (Rumex acetosa)
- Identificação: folhas em forma de seta/lança com dois lóbulos na base que apontam para trás. Sabor ácido característico
- Partes comestíveis: folhas jovens
- Época: primavera e outono
- Preparação: cruas em salada (quantidade moderada), cozidas em sopas. Sabor ácido e refrescante
- Atenção: contêm ácido oxálico. Consumir com moderação. Evitar em caso de problemas renais ou cálculos
6. Bolota (Quercus spp.)
- Identificação: fruto dos carvalhos e azinheiras. Cápsula castanha dentro de uma "cúpula" (capuz)
- Partes comestíveis: o fruto interior (miolo)
- Época: outono (outubro a dezembro)
- Preparação: as bolotas contêm taninos amargos que devem ser removidos. Descascar, partir e demolhar em água durante vários dias (trocar a água diariamente) até a água sair clara. Depois podem ser torradas ou moídas em farinha
- Valor nutricional: rica em hidratos de carbono, gorduras saudáveis e proteína
7. Alfarroba (Ceratonia siliqua)
- Identificação: vagens castanhas escuras (10-20 cm) de uma árvore mediterrânica sempre-verde. Muito comum no Algarve e Alentejo
- Partes comestíveis: a polpa da vagem (não as sementes)
- Época: final do verão e outono (agosto a novembro)
- Preparação: comer a polpa diretamente, torrar e moer para pó (substituto de cacau), ou ferver para fazer xarope
- Valor nutricional: rica em açúcares naturais, fibra, cálcio e ferro. Excelente fonte de energia
8. Funcho (Foeniculum vulgare)
- Identificação: planta alta (até 2 m) com folhas filiformes (semelhantes a fios de cabelo), flores amarelas em umbela e cheiro forte a anis
- Partes comestíveis: folhas, sementes e base do caule
- Época: todo o ano. Sementes no verão e outono
- Preparação: folhas frescas em salada ou como erva aromática, sementes em chá ou como condimento, base do caule cozida ou crua
- Atenção: pode ser confundido com a cicuta. A cicuta tem manchas púrpuras no caule e cheiro desagradável. O funcho tem cheiro agradável a anis
9. Malva (Malva sylvestris)
- Identificação: folhas arredondadas e lobadas, flores rosa-púrpura com veias mais escuras. Muito comum em terrenos baldios e bermas de estradas
- Partes comestíveis: folhas, flores e frutos jovens ("queijinhos")
- Época: primavera e verão
- Preparação: folhas cozidas em sopas (são mucilaginosas e espessam), flores em salada, frutos jovens comidos crus. Também usada em chá
- Valor nutricional: rica em vitaminas A e C, cálcio e ferro. Propriedades anti-inflamatórias
10. Espargos bravos (Asparagus acutifolius)
- Identificação: rebentos verdes finos que emergem do solo junto a arbustos espinhosos. Semelhantes aos espargos cultivados mas mais finos
- Partes comestíveis: rebentos jovens (turiones)
- Época: primavera (março a maio)
- Preparação: cozidos, grelhados, em omelete ou refogados. Partir a parte inferior dura. Sabor mais intenso que os cultivados
- Valor nutricional: ricos em fibra, vitaminas A e K, ácido fólico
11. Chicória (Cichorium intybus)
- Identificação: flores azuis brilhantes no topo de caules rígidos e ramificados. Folhas basais semelhantes ao dente-de-leão
- Partes comestíveis: folhas jovens e raízes
- Época: folhas na primavera, raízes no outono
- Preparação: folhas jovens em salada (amargas), cozidas com mudança de água para reduzir amargor. Raízes torradas e moídas como substituto de café
- Valor nutricional: rica em inulina (prebiótico), vitaminas A e K, potássio
12. Agrião (Nasturtium officinale)
- Identificação: cresce na água ou junto a cursos de água. Folhas pequenas arredondadas, caules ocos que flutuam. Sabor picante
- Partes comestíveis: folhas e caules jovens
- Época: todo o ano, melhor no outono e inverno
- Preparação: cru em salada ou sandes, em sopas, refogado. Lavar muito bem por crescer em água corrente
- Atenção: colher apenas em águas limpas. Águas contaminadas podem transmitir parasitas. Em dúvida, cozinhar sempre
Plantas tóxicas a evitar
Confusões perigosas
- Cicuta vs. Funcho/Salsa: a cicuta tem manchas púrpuras no caule e cheiro desagradável (a rato). O funcho cheira a anis. Em caso de dúvida, não colher plantas de folha recortada com flores em umbela
- Beladona vs. Mirtilos: a beladona tem bagas pretas isoladas dentro de um cálice em forma de estrela. Os mirtilos crescem em cachos em arbustos baixos
- Cogumelos: a identificação de cogumelos selvagens requer conhecimento especializado. Nunca comer cogumelos sem orientação de um especialista certificado
- Bagas vermelhas: como regra geral, evitar bagas vermelhas desconhecidas. Muitas são tóxicas
- Plantas junto a estradas: evitar colher plantas junto a estradas movimentadas (poluição), zonas industriais ou campos tratados com pesticidas
Como conservar
Secar
- Ao sol: espalhar folhas e flores numa superfície plana em local ventilado e com sol
- Pendurar: atar molhos de ervas e pendurar de cabeça para baixo
- Armazenar: guardar em frascos de vidro herméticos, em local escuro e seco
Fermentar
- Lactofermentação: folhas cortadas em frasco com água salgada (3% de sal)
- Conservação natural: o ambiente ácido conserva os alimentos durante meses
- Probióticos: alimentos fermentados são ricos em bactérias benéficas
Congelar
- Branquear primeiro: ferver 1 minuto, mergulhar em água fria, escorrer e congelar
- Sacos de vácuo: retirar o ar para melhor conservação
- Limitação: requer eletricidade. Consumir rapidamente se houver apagão
Recursos adicionais
Aprender mais
- Passeios guiados: participar em passeios de identificação de plantas com guias especializados é a melhor forma de aprender
- Praticar: comece por aprender 3-4 plantas bem, antes de tentar aprender mais
- Fotografar: fotografe as plantas que encontra e compare com guias de referência
- Segurança alimentar em emergência
- Checklist de preparação de emergência