PFA não é terapia e não é debriefing

Os primeiros socorros psicológicos são apoio imediato e prático para pessoas em sofrimento após uma emergência. Não precisa ser psicólogo para ajudar. Precisa de empatia, respeito e de saber ouvir.

O que são primeiros socorros psicológicos?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os primeiros socorros psicológicos são uma resposta humana e de apoio a pessoas em sofrimento que podem necessitar de ajuda. Baseiam-se em 5 princípios fundamentais:

Segurança

Promover a segurança física e emocional imediata

Calma

Ajudar a pessoa a acalmar-se e a regular as emoções

Autoeficácia

Reforçar a capacidade da pessoa para lidar com a situação

Ligação

Promover a ligação social e o contacto com a rede de apoio

Esperança

Transmitir esperança e confiança na recuperação

Metodologia: Observar, Ouvir, Ligar

A OMS estrutura os PFA em três ações fundamentais. Qualquer pessoa pode aplicá-las sem formação especializada.

1. Observar

  • Verificar a segurança: garantir que o local é seguro para si e para a pessoa que vai ajudar
  • Identificar necessidades urgentes: procurar pessoas com ferimentos graves, em estado de choque ou desorientadas
  • Reações de stress intenso: tremores, choro incontrolável, olhar vazio, agitação extrema ou isolamento
  • Pessoas vulneráveis: crianças separadas, idosos, pessoas com deficiência, grávidas
  • Não forçar contacto: nem todas as pessoas em sofrimento querem ou precisam de ajuda imediata

2. Ouvir

  • Aproximar-se com calma: apresentar-se, dizer quem é e perguntar se pode ajudar
  • Encontrar um local seguro: se possível, ir para um espaço mais calmo e privado
  • Escuta ativa: ouvir sem interromper, sem julgar, sem minimizar. Aceitar as emoções da pessoa
  • Perguntas abertas: "Como se está a sentir?" em vez de "Está bem?"
  • Não dar conselhos: evitar frases como "Podia ser pior" ou "Tem de ser forte"
  • Validar emoções: "É normal sentir-se assim" e "As suas reações são compreensíveis"

3. Ligar

  • Necessidades básicas: água, comida, abrigo, cobertores, informação sobre o que aconteceu
  • Informação prática: como contactar familiares, onde ir, que serviços estão disponíveis
  • Serviços de apoio: ligar a serviços de saúde, apoio social ou psicológico quando necessário
  • Rede social: ajudar a contactar familiares, amigos ou vizinhos de confiança
  • Capacitar: ajudar a pessoa a identificar os seus próprios recursos e forças para lidar com a situação

PFA para crianças

As crianças reagem de forma diferente ao stress e precisam de abordagens adaptadas à sua idade.

Até 5 anos

  • Contacto físico: colo, abraços e contacto físico reconfortante (se a criança aceitar)
  • Rotinas: manter horários de refeições e sono o mais normais possível
  • Linguagem simples: explicar o que aconteceu com palavras simples e verdadeiras
  • Objeto de conforto: manter o peluche, manta ou objeto preferido por perto
  • Brincar: o brincar é a forma natural das crianças processarem experiências difíceis

6 a 12 anos

  • Explicar a situação: de forma honesta e adaptada, sem mentir mas sem detalhes assustadores
  • Ouvir as perguntas: responder com paciência, mesmo que façam a mesma pergunta várias vezes
  • Normalizar emoções: explicar que ter medo, estar triste ou zangado é normal
  • Desenhar e escrever: encorajar a expressão através de desenhos, diários ou histórias
  • Papel ativo: dar-lhes pequenas tarefas para se sentirem úteis e com algum controlo

Adolescentes

  • Respeitar o espaço: nem todos querem falar imediatamente. Estar disponível sem pressionar
  • Informação factual: partilhar informação verdadeira e evitar rumores ou especulações
  • Contacto com pares: facilitar o contacto com amigos e colegas
  • Participação: envolvê-los em atividades de apoio à comunidade
  • Limitar exposição: reduzir a exposição repetida a imagens perturbadoras nas redes sociais

PFA para idosos

  • Respeitar a experiência: os idosos já viveram outras emergências. Reconhecer a sua experiência e resiliência
  • Necessidades médicas: verificar se têm acesso à medicação habitual, ajudar a contactar o médico assistente
  • Isolamento: os idosos são mais vulneráveis ao isolamento social. Garantir contacto regular
  • Informação clara: comunicar de forma clara e pausada, especialmente sobre procedimentos e serviços
  • Autonomia: ajudar sem infantilizar. Respeitar as suas decisões e preferências
  • Memórias traumáticas: a emergência pode reativar memórias de eventos passados. Ouvir com paciência e empatia
  • Ambiente familiar: sempre que possível, manter o idoso no seu ambiente habitual ou com pessoas conhecidas

O que NÃO fazer

Erros comuns a evitar nos PFA

  • Não forçar a pessoa a falar: respeitar quem não quer partilhar a sua experiência naquele momento
  • Não dar falsas promessas: evitar dizer "vai ficar tudo bem" quando não sabe. Prefira "estou aqui consigo"
  • Não minimizar: frases como "podia ser pior" ou "há quem esteja pior" não ajudam
  • Não julgar: evitar criticar reações emocionais. Todas as reações ao stress são válidas
  • Não pedir para "esquecer": o processo de recuperação tem o seu próprio ritmo
  • Não contar a sua própria história: o foco deve estar na pessoa que precisa de ajuda
  • Não oferecer álcool ou drogas: não são formas saudáveis de lidar com o stress

Autocuidado do cuidador

Quem ajuda também precisa de cuidar de si. O stress vicariante (absorver o sofrimento dos outros) é real e pode afetar a sua saúde.

Durante a emergência

  • Pausas regulares: fazer intervalos frequentes, mesmo que breves
  • Trabalhar em equipa: alternar com outras pessoas para evitar exaustão
  • Necessidades básicas: comer, beber água e dormir o suficiente
  • Reconhecer limites: aceitar que não pode ajudar toda a gente ao mesmo tempo

Após a emergência

  • Falar com alguém: partilhar o que viveu com uma pessoa de confiança
  • Atividade física: exercício regular ajuda a processar o stress
  • Rotinas: retomar as rotinas habituais assim que possível
  • Pedir ajuda: se os sintomas persistirem durante semanas, procurar apoio profissional

Quando procurar ajuda profissional

A maioria das pessoas recupera naturalmente após uma emergência. No entanto, deve procurar ajuda profissional se, passadas 4 semanas, a pessoa continuar a apresentar:

  • Pesadelos recorrentes ou flashbacks intrusivos
  • Evitar qualquer situação que recorde a emergência
  • Incapacidade de retomar as atividades diárias normais
  • Consumo excessivo de álcool, tabaco ou medicamentos
  • Pensamentos de autolesão ou suicídio
  • Isolamento social extremo

Recursos e contactos

Linhas de apoio em Portugal